A Mitocracia é o regime invisível do nosso tempo. Um regime em que narrativas legitimadas organizam o que parece evidente, aceitável ou impensável antes mesmo do debate começar. Não se trata de propaganda clássica, nem de conspiração centralizada, mas de uma infraestrutura narrativa que atravessa política, economia, cultura e vida cotidiana.
Não é um sistema comandado por um único ator e não exige intenção consciente nem coordenação central. Ele funciona justamente porque parece natural. Certas histórias ganham autoridade moral, outras são deslocadas para a margem, e muitas sequer chegam a ser formuladas. Na Mitocracia, a disputa política começa muito antes da discordância explícita. Ela começa na definição do que faz sentido dizer.
Não é relativismo absoluto, nem negação da realidade material. Não é um manual de manipulação, nem uma promessa de despertar final. A Mitocracia descreve um funcionamento social observável, produzido por instituições, tecnologias, métricas, incentivos e hábitos que se reforçam mutuamente. Seu poder está menos na imposição direta e mais na repetição contínua do que parece óbvio.
Nem todas as ideias circulam com o mesmo custo. Algumas são consideradas razoáveis antes mesmo de serem defendidas. Outras exigem justificativas morais, pedidos de desculpa ou silêncio estratégico. A Mitocracia começa quando o debate já nasce inclinado.
Narrativas mais poderosas não se apresentam como opiniões, mas como descrições neutras da realidade. Quando algo soa “óbvio demais para ser questionado”, é provável que não esteja fora da disputa, mas no seu centro invisível.
Há ideias que não são censuradas porque ninguém precisa censurá-las. Elas simplesmente não se tornam pensáveis. A Mitocracia opera também pelo silêncio estrutural, pelo que não chega a ganhar forma de frase.